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Quanto mais conteúdo a IA produz, mais valiosa fica uma opinião

  • há 12 minutos
  • 5 min de leitura

Se todo mundo agora consegue criar, criatividade ficou mais barata ou mais valiosa? Essa pergunta tem me acompanhado nos últimos meses. Hoje, qualquer pessoa consegue abrir uma ferramenta de inteligência artificial e, em poucos minutos, produzir um texto, uma imagem, uma apresentação, uma campanha, um roteiro ou até uma música.


Isso é fantástico, mas também cria um efeito curioso. Quando produzir ficou mais fácil, ter algo realmente interessante para dizer ficou mais difícil e talvez seja justamente aí que esteja uma das grandes mudanças do marketing. A execução ficou mais barata. A ideia não! A inteligência artificial reduziu drasticamente algumas barreiras de produção.


Segundo o relatório The State of Marketing and AI 2026, da Canva, 97% dos profissionais de marketing pesquisados já utilizam IA diariamente. O mesmo estudo aponta que 93% enxergam novas oportunidades de crescimento a partir dessas ferramentas. (Canva). 


Isso significa que a IA deixou de ser novidade. Ela já faz parte da mesa de trabalho. O problema é que quando todos passam a ter acesso às mesmas ferramentas a tecnologia deixa de ser diferencial por si só. Imagine 100 empresas utilizando IA para produzir conteúdo. Todas conseguem escrever, criar uma imagem bonita, montar uma apresentação, gerar 20 ideias de campanha em poucos segundos.

Criatividade e estratégia de mãos dadas


Então surge a pergunta: por que alguém deveria prestar atenção justamente na sua? É nesse ponto que criatividade e estratégia voltam ao centro da conversa. Estamos entrando na era do conteúdo infinito. Por muitos anos, produzir conteúdo exigia recursos. Era preciso escrever, fotografar, filmar, editar, diagramar, publicar, etc. 


Hoje, grande parte desse processo pode ser acelerada. Isso é extremamente positivo para empresas e profissionais. A Adobe aponta que 75% dos CMOs pesquisados relatam melhorias moderadas ou significativas no volume e na velocidade da produção de conteúdo utilizando inteligência artificial generativa.


Ou seja, nunca produzimos tanto. Só que existe um pequeno problema: a atenção das pessoas não aumentou na mesma proporção. Temos mais conteúdo disputando praticamente o mesmo espaço mental: mais vídeos, mais artigos, mais anúncios, mais posts, mais newsletters, mais gente querendo explicar alguma coisa.


O resultado é uma espécie de inflação do conteúdo. Quando existe abundância demais, aquilo que é comum perde valor. E conteúdo genérico começa a valer cada vez menos.


Ter informação não é ter opinião


A IA é extraordinária para organizar informação. Pode pesquisar possibilidades, estruturar raciocínios, apresentar caminhos e acelerar processos. Mas existe uma diferença importante entre informação e opinião.


Informação responde “o que existe sobre este assunto?”, enquanto opinião responde “o que eu penso sobre isso?”. E essa segunda pergunta exige algumas coisas que não aparecem apenas em um prompt. Experiência, repertório, vivência, erro, acerto, contexto e coragem para defender uma posição.


É por isso que dois profissionais podem utilizar exatamente a mesma ferramenta e produzir conteúdos completamente diferentes. Um utiliza a IA para substituir seu pensamento. O outro utiliza a IA para ampliar seu pensamento. A diferença não está necessariamente na ferramenta. Está em quem está sentado diante dela.


Quanto mais artificial fica o conteúdo, mais procuramos sinais humanos


Existe um dado do mesmo estudo da Canva que considero especialmente interessante. Apesar de 97% dos profissionais pesquisados utilizarem IA diariamente, 87% afirmam que a melhor publicidade ainda precisa de um toque humano. 


Não vejo isso como uma contradição. Vejo como uma pista. As pessoas não estão rejeitando tecnologia. Estão rejeitando conteúdo sem personalidade. 


A tecnologia pode ajudar a escrever, mas alguém precisa escolher o que vale a pena dizer. Pode produzir uma imagem, mas alguém precisa definir qual sentimento ela deve provocar. Pode sugerir uma campanha, mas alguém precisa compreender o cliente, o mercado, o momento e a cultura. Pode criar 100 ideias, mas alguém precisa ter critério para jogar 99 fora. E talvez essa seja uma das competências mais importantes daqui para frente: saber escolher.


Criatividade não é produzir coisas diferentes


Existe também uma confusão antiga sobre criatividade. Ser criativo não significa simplesmente fazer algo estranho, divertido ou diferente. Criatividade sem estratégia pode produzir coisas lindas que não resolvem absolutamente nada.


Uma campanha pode ganhar elogios e não gerar resultado. Um vídeo pode acumular visualizações e não construir marca. Um post pode viralizar e não aproximar nenhum cliente. Por isso, gosto cada vez mais de pensar criatividade junto com estratégia.


A criatividade encontra uma maneira interessante de chamar atenção. A estratégia responde por que precisamos daquela atenção. Uma cria movimento, a outra determina direção. Separadas, ambas ficam mais fracas.


A IA não elimina a criatividade. Ela aumenta a responsabilidade criativa. Durante muito tempo ouvi discussões sobre se a inteligência artificial substituiria designers, redatores, publicitários, fotógrafos ou profissionais de marketing.


Talvez essa seja a pergunta errada. Prefiro outra: o que acontece quando excelentes ferramentas criativas ficam disponíveis para praticamente todo mundo? Minha resposta é simples. O nível mínimo sobe.


Aquilo que ontem impressionava passa a ser básico. Uma apresentação bonita deixa de ser diferencial. Uma imagem tecnicamente perfeita deixa de ser diferencial. Um texto corretamente estruturado deixa de ser diferencial. A régua muda.


Isso obriga profissionais e empresas a desenvolverem algo que nenhuma ferramenta entrega sozinha: uma visão própria do mundo.


Inclusive, pesquisas recentes da Adobe mostram um cenário menos apocalíptico do que algumas previsões sugeriam. Entre setembro de 2025 e abril de 2026, as vagas para profissionais criativos nos Estados Unidos cresceram 8%, enquanto a demanda por habilidades relacionadas à IA também avançou.


A tecnologia não necessariamente elimina o profissional criativo. Ela muda aquilo que esperamos dele. 


O perigo do conteúdo que parece correto


Existe um tipo de conteúdo que provavelmente veremos cada vez mais. Ele está certo, é bem escrito, tem começo, meio e fim. Possui uma imagem bonita, não tem erro de português. E ninguém lembra dele cinco minutos depois.


Esse talvez seja o novo inimigo das marcas. Não o conteúdo ruim. O conteúdo correto demais para provocar qualquer coisa. Porque marcas não são construídas apenas com informação. 


São construídas com memória, com personalidade, com repetição, com posicionamento, com opiniões que fazem alguém concordar ou discordar.


Se ninguém consegue identificar uma opinião sua dentro do conteúdo, talvez qualquer outra empresa pudesse ter publicado exatamente a mesma coisa. E esse é um sinal perigoso. 


A ferramenta não é mais a vantagem competitiva


Existe uma tendência natural quando surge uma nova tecnologia. No início, quem possui acesso sai na frente. Depois, todo mundo consegue acessar e a vantagem muda de lugar. Estamos chegando rapidamente nesse segundo momento com a inteligência artificial.


Saber utilizar IA será importante, provavelmente será básico. Assim como saber usar Google, planilha, câmera ou redes sociais virou básico em diferentes momentos. A vantagem competitiva estará em o que fazemos com ela. Na qualidade das perguntas, na capacidade de interpretar, no repertório, no conhecimento do cliente, na estratégia e, principalmente, na criatividade. É assim que enxergamos isso na agência


Na Voice, tecnologia faz parte do processo. Seria estranho defender inovação para nossos clientes e ignorá-la dentro da própria agência. Utilizamos ferramentas para pesquisar, organizar, acelerar processos, explorar possibilidades e ganhar eficiência.


Mas existe uma linha que considero fundamental: a tecnologia pode participar da produção. A estratégia precisa continuar comandando a produção. Porque nosso cliente não precisa simplesmente de mais conteúdo. O mundo já tem conteúdo demais.


Ele precisa de comunicação que tenha motivo para existir. Uma ideia, um posicionamento, uma história, uma provocação, uma percepção que queremos construir. Alguma coisa que faça aquela marca ocupar um espaço próprio.


Então criatividade ficou mais barata ou mais valiosa? A capacidade de produzir ficou mais barata. A capacidade de apertar um botão ficou mais acessível. A capacidade de executar aumentou absurdamente. 


Mas a capacidade de pensar diferente, conectar pontos, entender pessoas e transformar uma ideia em estratégia? Essa ficou mais valiosa. Talvez nunca tenhamos tido tantas ferramentas criativas disponíveis. E justamente por isso nunca tenha sido tão importante ter algo próprio para dizer.


A IA pode ajudar qualquer empresa a produzir conteúdo, mas ainda precisamos de pessoas para decidir quais ideias merecem ocupar espaço no mundo e, principalmente, na cabeça das pessoas.


 
 
 

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